INVESTIGADOR DE POLÍCIA

No momento de perigo, o cidadão pensa em Deus e na polícia; passado o perigo ele se esquece de Deus e execra a polícia.

- Liderança

LIDERANÇA

Quando trabalhamos na polícia, algumas coisas se tornam muito presentes na nossa vida. O conceito de parceiro; a necessidade de resolver situações complicadas sem contar com a ajuda de ninguém, além do parceiro; a consciência que quando o parceiro está em uma posição difícil a sua posição será igualmente difícil.

Derrubamos portas, caímos prá dentro, damos tiros, levamos tiros, damos a cana…Ninguém precisa nos dizer o que é para ser feito. Vamos lá, fazemos e pronto. E não é uma questão de orgulho, mas de sobrevivência. Se esperarmos que nos digam o que fazer, morremos. Temos que agir…A alternativa é morrer. Só contamos com os parceiros, com mais ninguém.

Cheguei ontem (16/10/2008) ao local da concentração para a manifestação exatamente no momento em que estava sendo executado o hino nacional. Estava tudo muito bonito…me chamou a atenção a inscrição nas camisetas de alguns colegas, que dizia: “Verás que um filho teu não foge à luta”. É exatamente o espírito dos policiais civis do estado de São Paulo.

Terminada a execução do hino nacional, o primeiro erro: CUT, FORÇA SINDICAL, CENTRAL NÃO SEI O QUE, UNIÃO DE NÃO SEI ONDE, DEPUTADO FULANO, SENADOR SICRANO, PRESIDENTE DE NÃO SEI QUE se revezavam usando a palavra. Quem determinava qual seria o próximo era um deles. Nenhum policial no trio elétrico. Se tinha algum, estava escondido atrás dos que tomavam conta da coisa. Procurei o colega Habib e expus meu inconformismo com a situação. A resposta foi que o movimento precisa do apoio da sociedade civil… Ledo engano. O único efeito prático que essa ingerência no nosso movimento traz é aumentar a relutância dos colegas que ainda não aderiram cem por cento ao movimento em participar. Não admitimos que nos usem. Não está na nossa personalidade.

Quando todos os “representantes da sociedade civil” se locupletaram, resolveram, finalmente, deixar que alguns policiais fizessem uso da palavra…Mas tão logo isso aconteceu, resolveram que deveríamos nos dirigir até um outro local. Ou seja, continuamos sem ouvir os nossos “líderes”.

Começou a passeata. Começou a chuva. Algumas centenas de metros depois, nossos “líderes” resolveram que deveríamos parar. Um deles, menos avisado, insistia que deveríamos nos sentar no asfalto, debaixo de chuva… Claro que ninguém se sentou.

Alguém informou que o governador receberia uma comissão composta pelos presidentes das entidades representativas, e que deveríamos esperar uma resposta sentadinhos naquele local…Mentiu. Tanto que a tal comissão foi impedida de passar pela meganha. Não entendi o motivo da mentira.

O que nossos “líderes”, juntamente com os “representantes da sociedade civil”, não faziam idéia, é que nós, policiais, sabemos o que é parceria. E que não esperamos ordens de ninguém para fazermos o que é certo. E que nunca deixaríamos qualquer parceiro correr qualquer risco sozinho.

Não são os dirigentes sindicais que decidem os rumos da greve, mas nós, trabalhadores. A eles cabe unicamente implementar o que decidimos. Infelizmente, não houve essa compreensão ontem. O resultado aí está.

Foi patético ver aqueles desavisados em cima do trio elétrico tentando impedir a nossa ação. E foi exatamente a nossa ação que fez os colegas que ainda tinham dúvida quanto à seriedade do movimento se tornarem parceiros.

Hoje estamos mais fortes. Hoje temos o apoio de todos os colegas policiais civis, exceto o do Delegado Geral de Polícia e seus fiéis escudeiros. Esses prezam suas cadeiras mais que à própria vida…o que dizer da vida de seus subordinados?

Para finalizar: Sou um dos maiores críticos da existência dos chamados grupos de elite dentro da polícia civil – GARRA, GOE e outros que tais. Apesar de não concordar com a existência desses grupos, hoje TIRO O CHAPÉU para os parceiros que neles trabalham. Agradeço publicamente a vocês pela participação nos acontecimentos de ontem. Apesar dos vacilos dos seus superiores hierárquicos, vocês agiram de forma heróica e honraram a POLÍCIA CIVIL DO ESTADO DE SÃO PAULO.

ABRAÇOS, E ATÉ A VITÓRIA FINAL.

Flávio Lapa Claro
Investigador de Polícia
DAS/DEIC

*Revisado pelo autor em 30/12/2008
**Disponível para download no formato .pdf: Liderança