Sempre que leio algo de que goste imensamente, sugiro aos colegas que também o façam. A minha visita vespertina diária ao blog Desabafo Brasil me presenteou com a pérola que reproduzo abaixo, extraída do blog Cidadania.com, de autoria do Eduardo Guimarães. Como não achei, no blog Cidadania.com, um link para o artigo (será que o Dr. Guerra pode me recomendar um oftalmologista de confiança ?), não resistí à tentação de reproduzí-lo aquí, na íntegra.
Creio que que o Daniel se sentiu exatamente como eu; e, como ele, vou recomendar a todos a leitura do Cidadania.com, que traz artigos interessantíssimos.
Abraços a todos
Flávio Lapa Claro
Investigador de Polícia
DAS/DEIC
O dia em que o Brasil quebrou
Atualizado às 10h13 de 29 de dezembro de 2008

No último dia 22 de dezembro, o presidente da República, José Serra, comunicou aos brasileiros, em rede nacional de rádio e tevê, a moratória da explosiva dívida externa do Brasil. O discurso presidencial atribuiu nossa péssima situação econômica à crise econômica internacional, claro, mas os críticos do governo federal, entre os quais me incluo, debitam essa situação aos 14 anos em que os tucanos governam o país.
Ganha um picolé de chuchu quem acertar o número de vezes que o PSDB quebrou o Brasil. Na verdade, porém, o dia em que este país quebrou mesmo foi na segunda-feira passada. E de uma forma que tornará hercúlea a tarefa de juntar seus cacos.
O autor dessa proeza é o sucessor do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que em 2002, sob o discurso de “mudança” apesar de também ser tucano como FHC, impôs a Luiz Inácio Lula da Silva sua quinta derrota numa eleição presidencial. Foi Serra que quebrou o Brasil bem quebrado como o presidente da República mostrou em seu pronunciamento supra mencionado.
Em minha opinião, o Brasil poderia ser um dos poucos países do mundo a resistir à crise surgida no mundo rico se Lula tivesse vencido a eleição do sucessor de FHC e hoje fosse o presidente da República. Certamente seu anunciado plano de diversificar os parceiros comerciais do Brasil, reduzindo a altíssima dependência dos EUA e da Europa em que sempre estivemos metidos, evitaria que mergulhássemos junto com o mundo rico numa crise dessa magnitude.
Mas essa tragédia econômica em que nos meteram foi apenas iniciada por FHC. Na verdade, foi consolidada de fato por Serra quando este tirou o Brasil do Mercosul, decretando assim,oficiosamente, a morte do bloco comercial sul-americano.
Nada disso teria acontecido, porém, se em 2006 Lula não tivesse perdido sua sexta eleição presidencial. Naquele ano, Serra se reelegeu graças à mídia e aos grandes especuladores internacionais como George Soros, que, como em 2002, conseguiram vender mais uma vez o conto da carochinha de que a escolha do Brasil seria entre “Serra ou o caos”.
A crise econômica de 2006, causada pelo mesmo ataque especulativo eleitoreiro que em 2002 assustou os brasileiros e os compeliu a votar em Serra pela primeira vez, novamente conseguiu eleger o tucano. Às custas de mais endividamento externo para suprir a fuga de divisas causada pelo tal “efeito Lula”, nossa dívida externa subiu ao explosivo patamar atual.
Caberia aos mesmos especuladores nacionais e internacionais e à mídia local, que agora perdem com a crise, refletirem que as manobras que fizeram para eleger Serra e FHC duas vezes cada um enterraram o país na sepultura que cavaram com suas mãos cobiçosas.
Lula tem dito, desde a quebra do banco americano Lehman Brothers, em setembro, que, se tivéssemos diversificado nossas parcerias comerciais para além do eixo Estados Unidos – Europa, aumentando o comércio com a China (Ásia), com a África e com o resto da América Latina, abandonando a prioridade que a política externa vem dando aos negócios com o mundo rico desde sempre, não estaríamos agora afundando junto com os americanos e europeus, nem teríamos levado nossos vizinhos sul-americanos conosco.
As pesquisas de intenção de voto mostram que 84% dos brasileiros se dizem dispostos a votar em Lula para presidente em 2010, daqui a dois longos anos. “Turbinam” a pré-candidatura petista o salário mínimo de 70 dólares, o desemprego nas alturas, a violência e a criminalidade, variantes da revolta social que tem gerado saques a supermercados e pôs centenas de milhares em confronto com a polícia quando aquela massa humana marchou em direção ao Palácio do Planalto no mês passado.
E nem as pesquisas de intenção de voto para presidente me dão esperança. Em 2006, quando se acreditava que Lula finalmente chegaria ao poder, a campanha da mídia e dos especuladores internacionais vendeu à população que, se não escolhesse Serra, o país quebraria. George Soros alardeou novamente o bordão sobre “Serra ou o caos”. A mídia inventou mais escândalos contra Lula, como fez em 2002, em 1998, em 1994 e em 1989. Por que em 2010 seria diferente?
Estou cansado. Não agüento mais viver num país que há mais de um século de vida republicana se alterna entre crises e mais crises, e com um povo que se acovarda diante da chantagem dos tubarões das finanças nacionais e internacionais. Anuncio, pois, que este é o último post deste blog. Não agüento mais falar para as paredes. Só voltarei a escrever em 2010, se este país tomar vergonha na cara e eleger um governo que pare de matratá-lo. Até lá, não perderei mais tempo.
*
Sim, o texto acima é uma ficção, mas está fundamentado em possibilidades concretas. Em 2002, estávamos diante de uma encruzilhada. Quem decidiu experimentar uma alternativa aos grupos políticos de direita que sempre governaram o país foram uns dez por cento do eleitorado, que suplantaram os que pretendiam manter no poder os mesmos que governaram desde sempre.
As hipóteses que apresentei de medidas que teriam sido tomadas por um governo Serra são fundadas na realidade. Conforme diz hoje o colunista Keneddy Alencar na Folha de São Paulo, Serra é contra o Mercosul e a favor de maior interação comercial com o mundo rico. Se tivesse sido eleito em 2002, certamente teríamos quebrado com os americanos, e o Mercosul, à esta altura, não existiria mais.