INVESTIGADOR DE POLÍCIA

No momento de perigo, o cidadão pensa em Deus e na polícia; passado o perigo ele se esquece de Deus e execra a polícia.

O POLICIAL CIVIL IDEAL

Publicado por Flávio Lapa Claro em 02/01/2009

O POLICIAL CIVIL IDEAL

Recebi e-mail do meu amigo Vagninho, que fez comentários ao post “OS GRUPOS DE ELITE DA POLÍCIA CIVIL”, publicado no blog Investigador de Polícia.

Amigo de longa data, o Vagninho, como eu, trabalhou no GARRA muito tempo atrás, quando ainda não existiam fardas na Polícia Civil.

Uma das considerações interessantes que ele fez é que “o bom ‘tira’ deve ser completo: na investigação e operacionalmente… E estamos pecando nos dois sentidos…”.

columboConcordo plenamente com o meu amigo. O policial civil ideal é aquele que, além de ter um bom conhecimento teórico e prático das ciências do Direito, da Sociologia e da Psicologia, também possui um raciocínio lógico bem desenvolvido e rápido, a capacidade de se comunicar em qualquer ambiente e com qualquer grupo social, uma cultura geral bastante abrangente, entre outras coisas… Além disso, deve ter um ótimo preparo físico, treinamento constante em defesa pessoal, armamento e tiro; deve ter suas condições psíquicas, psicológicas e emocionais sempre harmônicas com o serviço a ser desenvolvido.

O policial que reunir as características acima estará, com toda certeza, apto a participar de todos os atos de Polícia Judiciária necessários ao desempenho de suas funções, em qualquer unidade policial civil. Mas… O ideal nem sempre corresponde à realidade. Reunir todas essas características em uma só pessoa é praticamente impossível.

Ainda que fosse fácil, muitos são os impedimentos para que possamos chegar perto de sermos policiais civis ideais.

ramboOs impedimentos já começam no próprio concurso público. As famigeradas provas orais dão chance para que ótimos candidatos sejam excluídos do concurso em favor de apaniguados; as provas escritas, compostas por questões do tipo múltipla escolha, permitem aos que nada sabem utilizarem o método do chutômetro, e, se tiverem sorte, se saírem melhor que os que possuem um bom conhecimento dos assuntos. As avaliações física e psicológica se aproximam de uma piada de mau gosto – situação totalmente diferente daquelas efetuadas nos concursos para ingresso na Polícia Federal, por exemplo. Aliás, nunca tive notícia de que as avaliações física ou psicológica tenham sido motivo de reprovação de algum candidato nos concursos para a Polícia Civil do Estado de São Paulo.

Continuam com os cursos de formação técnico profissional. Imaginar que 3 meses de curso – aproximadamente 45 dias úteis – sejam suficientes para a formação de um profissional da Polícia Judiciária é um acinte.

Supondo que o ingressante em qualquer uma das carreiras policiais civis (calça branca) reuna, antes de começar a trabalhar na Polícia, todas as condições para ser um “Policial Civil Ideal”, acima descritas, é quase certeza que em pouco tempo essas condições deixarão de serem satisfeitas. Ele não contará com qualquer apoio da instituição para a manutenção ou aprimoramento daquelas qualidades. Treinamentos praticamente não existem; cursos de atualização, quando os há, oferecem pouquíssimas vagas, e a falta de pessoal nas unidades policiais civis é tão grande que as chefias preferem não divulgá-los; quando, inadvertidamente, tomamos conhecimento de algum curso e dele demonstramos interesse em participar, nossos superiores hierárquicos, além de não nos darem qualquer apoio, ainda fazem de tudo para que mudemos de idéia, pois perderão um policial enquanto durar o curso. Apoio psicológico, então…Nem pensar…Como é que alguém pode ter ótimas condições psicológicas com as condições de trabalho que temos? Com a qualidade da assistência médica fornecida pelo Estado? Com o preconceito da sociedade que vê em nós um bando de corruptos e ladrões? Com a impossibilidade de fornecermos às nossas famílias condições dignas de vida? Com a dificuldade em termos uma convivência familiar normal, causada pela jornada de trabalho abusiva a que somos submetidos, sem qualquer compensação? Com o risco que corremos pelo simples fato de andarmos com uma carteira funcional no bolso? Com a falta de perspectiva de uma ascensão profissional baseada no real merecimento, não na puxação de saco?

desesperoAlém disso, os salários estão tão aviltados que perder um dia de bico para participar de algum treinamento ou curso não é uma possibilidade razoável para grande parte dos colegas.

Estamos muito longe do ideal, Vagninho…E, pelo andar da carruagem, continuaremos nos afastando cada vez mais.

Um grande abraço para você, Vagninho, e que 2009 seja muito melhor que o ano que se encerrou. Muita PAZ, muito AMOR e muita DIGNIDADE para você e todos aqueles que você ama.

Flávio Lapa Claro
Investigador de Polícia
DAS/DEIC